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NILSON THOMÉ

DE MARIA FUMAÇA - XXXIX & DE MARIA FUMAÇA - XL

15/08/2012 00h00

Acabo de receber uma advertência:


POR ORDEM DO COMANDO GERAL DA DITADURA MILICA QUE GOVERNA ESTE PAÍS FICA DECRETADA A PROIBIÇÃO DE PUBLICAÇÃO HOJE E AMANHÃ DO CAPÍTULO Nº 29 DO CONTO PROVISORIAMENTE INTITULADO “DE MARIA FUMAÇA” DE NILSON THOMÉ. TAL CAPÍTULO CONTÉM PALAVRAS CONSIDERADAS IMPUBLICÁVEIS PELO SERVIÇO DE CENSURA PÚBLICA, CONTENDO AFRONTAS À MORAL E AOS BONS COSTUMES.


  Aqui, o problema foi que a censura a serviço dos golpistas de 64 entendeu que a narrativa do reencontro amoroso em Marcelino – de eu e da minha musa – não poderia vir à público, pelas “cenas fortes” nele descritas...


  Tudo bem! No futuro, com a invenção da televisão colorida, sendo criada a TV Mundo, ou rede Mundo de Televisão (plim-plim), certamente as novelas passariam do rádio para a tal telinha e, então, uma novela chamada Gabriela faria meu encontro com minha musa parecer historinha infantil, “livre para menores de 12 anos”. Em sendo assim, acatando – na marra – a censura, sigo adiante com minhas histórias... e aproveito o espaço para, EM PULANDO UM CAPÍTULO – regressar ao tempo getulista da Revolução de 30 e contar mais uma historinha...


DE MARIA FUMAÇA - XL




Nilson Thomé




  Confortavelmente sentado no meio do carro de primeira, banco estofado de couro (ainda não tinham inventado o courvin), ao meu lado estava um velho amigo meu, jovem cidadão lá do Caçador, que um dia seria diplomado bioquímico. Era o Jandyr Sperança (filho do ex-Prefeito Carlos Sperança), que na verdade ficaria mais famoso ainda por nunca mandar lavar o seu carrão, um Dodge Dart, permanentemente marrom cor de pó e de barro. Ele soltou a língua e, entre alguns causos interessantes, contou este, que foi até depois confirmado por um neto de Francisco Correa de Mello, que vamos contar aqui, num tema para compor o folclore caçadorense.


  Numa madrugada qualquer do mês de outubro de 1930, um dos filhos do primeiro morador da cidade, proprietário da Fazenda Faxinal do Bom Sucesso, no interior da qual foi construída a Estação Ferroviária de Rio Caçador, envolveu-se numa “briga de jogo” (de baralho) com o então Agente da Estação e foram às vias de fato. Frequentemente, “as carteadas” de pife terminavam em brigas. O ferroviário, um polaco muito forte, agrediu violentamente o caboclo, machucando-o bastante no rosto. O caboclo Correa jurou de morte o ferroviário.


  A localidade já era Vila, sede de Distrito de Rio Caçador, desde 1923, pertencente ao Município de Campos Novos. No outro lado do Rio do Peixe, desde 1928 já estava instalada a Vila Caçador, sede do Distrito de Santelmo, que havia sido criado pelo Município de Porto União.


  Correa foi medicado em casa e, enquanto convalescia, arquitetou o plano de vingança: explodir a ponte ferroviária sobre o Rio Castelhano (onde hoje localiza-se a fábrica de papel da Primo Tedesco S/A, no Bairro Bom Sucesso). Ia mostrar para os turmeiros da SP-RG quem era mais valente. Sabia ele que, cada dia mais, pela estrada de ferro estavam transitando muitas tropas militares que eram “do governo” (assim como o caboclo regional entendia que a ferrovia “era do governo”). Restabelecido da surra, na noite de 15 de outubro, com mais alguns familiares e amigos, Correa arrombou o depósito de dinamite da Intendência Distrital de Rio Caçador e furtou várias bananas, pólvora e rabichos de estopins.


  Tendo muito cuidado, pois nas duas vilas os imigrantes pioneiros (a maioria vinda do Rio Grande do Sul) já se organizavam em pelotões de civis armados que comporiam os batalhões patrióticos revolucionários, nesta mesma noite de 15 de outubro, sigilosa e sorrateiramente o grupo vingativo preparou o atentado, instalando as bananas de dinamite na estrutura metálica, por baixo dos trilhos da ferrovia. Quando a primeira próxima composição por ali passasse, a ponte seria explodida junto com o trem.


  Entretanto, sabendo disso, não concordando com a planejada sabotagem, um sobrinho deste Correa contou o que ouviu ao Intendente Distrital, ele que, imediatamente, acionou o único policial que aqui residia, o delegado Doutor Lambança, e boa parte dos moradores da vila. Ainda à noite, dirigiram-se à casa do caboclo, prenderam-no e então ele confessou onde havia instalado os explosivos. Com o reforço de alguns ferroviários turmeiros que trabalham no Quadro da Estação, o grupo correu para lá, ainda no escuro do início da madrugada, utilizando lanternas a querosene, conseguiu retirar rapidamente as dinamites, assim desarmando as armadilhas, e livrar a ponte do perigo.


  Manhã de 16 de outubro: o primeiro próximo trem que atravessou sem perigo a ponte ferroviária do Rio Castelhano era a composição revolucionária vinda do Sul, que conduzia Getúlio Vargas.


(continua)

 

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