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NILSON THOMÉ

DE MARIA FUMAÇA - XXXV

18/07/2012 00h00

- O Dotô Estengel não gostava do Seu Zeca. Ela morava ali no Rio das Pedras e naquele ano de 1909 conseguiu escritura de papel de verdade da sua propidade. Assim, os donos dos trilhos não puderam medir a terra dele, como queriam, pra depois revendê pra imigrantis. E já fazia tempo que os dois andava discutindo também por medição de obra da empretada e pelo valor de cada tacada. Na verdade, um não gostava do outro e vice versa. No finar de agosto, quando mediram os trabaio da nossa turma, a conta não fechô, não, uai! Pro Zeca, nosso trabaio rendeu xis mais, e pro dotô Estengel deu xis menos. Era encrenca certa. Encrenca à vista!


- Seu Zeca era gente boa. Gaúcho dos bão que ficou por ali no Rio das Pedras, onde achou seu chão, depois dos maragato. Não quis vortá pro Rio Grande, por causa das degolas. Era muito valente e não levava desafôro pra dentro de casa. Num finá de tarde – era meado de setembro - Seu Zeca chamô todos nóis na frente da sua bodega, que ele tinha ali pertinho, donde nos vendia tudo fiado e depois descontava dos pagamento. Nos informô que ia tomá todo o dinheiro do trem pagadô, que vinha pagá os empreteiro no trecho e, com isso, compensaria tudo o que os donos dos trilho tinha robado de nóis, pagando sempre menos, todos os meis, com as medições erradas.


- Nossa, Seu Osvaldo! E o senhor, um dos trabalhadores da empreitada do Zeca Vacariano, estava ali, com aquele pessoal, que ia assaltar o trem tesoureiro? – perguntei, agora curioso.


- Eu tava sim, moço. Só que não fiquei ali. Eu não queria me envolvê em robô. E junto com eu tinha um outro cidadão – ele tinha o sobrenome de quem descobriu a América: Colombo – que também não queria encrenca e queria logo ir morá lá perto do Iguassú, entre o Porto e as Canoinhas, onde seria construído outro ramal de trilhos, na direção do porto de mar de São Francisco. Meu amigo, muito lúcido (seu nome era isso mesmo: mas sem o “d”) se mandou-se pro norte, bem quietinho, em direção do povoado de Valões. E eu? me mandei-me pro sul, passei pelo Rio Bonito, pelo Erval, onde uma turma já tava fazendo picada nos mato na beira do Rio do Peixe. Já tinha uma trilha que dava num lugá de muito peixe graúdo que os índios diziam Piratuba e vim dar aqui na Vorta Grande, bem pertinho do Rio Pelotas.


- Tinha uns brasileros caboclos morando aqui perto. Eram meio bugre, meio moreno. Bom de conversa como bom mineiro que eu era, passei a conversa neles, fiz amizade das boas com eles. Me ajudaram a erguê um ranchinho, onde fiquei por um bom tempo. E mais um bom tempo depois, chegaram aqui os braço da turma da construção da linha. Como não me conheciam, me fingi de distraído e muito de desentendido. Foi então que soube que o Seu Zeca havia assartado e robado o tesoureiro da companhia dona dos trilhos naquele finá de setembro, que havia matado gente e fugido. Trezentos e tantos contos de réis, um dinheirão. Seu Zeca virô manchete de jornal neste país todo. Mas eu não. O Lúcio também não. Escapamo de boa!


- Então, seu Osvaldo, o senhor estava aqui quando os trilhos chegaram. E aí? Resolveu ficar por aqui mesmo? Como foi isso?


-Pois óia, moço, foi isso memo. Encha mais esse copo de vinho, pois tá raso e de liso chega eu e acho que vancê também. Quase um ano depois, isso ali pelo fim de 1910, a companhia resorveu fazê uma estação aqui, pra daqui providenciá a tar de colonização. Me contaram que iriam trazê colonos pra cá. Vinham de trem e daqui visitariam linhas de terra que ainda não tinham dono e que então podiam comprá. Ajudei eles nos trabaio, ganhei uns réis e com mais ajuda dos brasilero ergui uma casinha maió. Mas deu pobrema. Uma enchente levô a ponte de madera do Pelotas e os trens pararam. Só quase dois anos dispois deu trem de novo, passando pela ponte nova, aquela de ferro que tá ali.


- E o senhor ficou por aqui, sozinho, fazendo o que neste fim de mundo?


- Fiquei porque um dia veio uma famia de trem. Italianada de segunda que sobrô de colônia véia lá de Caxias. Vinham por Passo Fundo, comprá terra aqui perto do Engano. Me pediram pouso no meu ranchinho. A gente se espremeu, mas deu pra todo mundo. Foi aí que conheci a minha futura patroa. Uma menina muito bonita, cabelos castanhos, olhos verdes, bochecha larga, dente branco, meio gordinha pelas ancas largas, mas de bom tamanho. Era coxuda. Só falava italiano. Não entendia patavina da língua brasilera. O nome dela era Adelina. Ela sorriu pra eu, eu ri pra ela e um ano dispois a gente casô. Fumo casá ali na capela de Marcelino, pois pra ali de quando em vez vinha rezá missa e fazê casório o padre de Bonifácio [Erechim]. Ela me ensinô bergamasco e eu ensinei brasilero pra ela. Imagina vancê como foi nosso começo de vida de casado.


- O senhor estava aqui quando da Revolução de 1930, de Getúlio Vargas?


- Craro que tava. Isso, depois de mais um copo de vinho, e antes do badalá a meia noite, eu conto pra vancê. Antes deixa eu contá mais da minha patroa Adelina.


(continua)

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