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NILSON THOMÉ

DE MARIA FUMAÇA - XXVI

16/05/2012 00h00

   Enquanto caminhava me dei conta que o “hoje” era uma quarta-feira. Sim, já era quarta-feira! Então seria dia de pouco movimento na estação. O misto, que usava a sigla “M-22”, já tinha saído, às cinco da madrugada. O direto para o norte, que era chamado de “Paulista”, este com a sigla “P-14”, só subiria na quinta-feira e perto do meio-dia. Vi o agente da RVRGS, o senhor Rübenich, na plataforma de piso de pedra, indo de lá pra cá, de cá para lá, com as mãos pra trás, enquanto aguardava a conferência das cargas de produtos das colônias, mais dos sacos de farinha de trigo do moinho, que seriam embarcados ainda hoje no trem que partiria para o sul. Quando soube que eu era do Caçador, ele arregalou os olhos. Falou qualquer coisa sobre um filho seu, o Wilmar, que ia trabalhar ou estava trabalhando na técnica da rádio de lá, a Rádio Caçanjurê, que se dizia ser “uma flecha sonora nos céus de Santa Catarina e do Brasil”... Havia começado um tempinho atrás com auto-falante na rua, era do Schwartz, do Gattermann, e nela falavam o Zini, o Telck, o Riedi, a formosa dona Ilka Helena, entre outros.


   Decidi comprar bilhete para o direto, que sairia antes do almoço de amanhã, quinta-feira (pontualmente às 11h25min, me disse seu Rübenich e isso só ele fingindo acreditar). Em dando tudo certo, a gente chegaria à Estação de Caçador, oito horas depois em 240 longos e curvos quilômetros rio-acima por volta das oito da noite. E em sendo assim, ficaria mais um dia, uma noite e outro meio-dia no Marcelino. Na marra.


   “Trem Paulista”? Pois é. Era assim que era conhecida a composição do “Direto”, pois saía de Santa Maria da Boca do Monte, depois de pegar os passageiros que vinham de Pelotas, do Jaguarão, de Porto Alegre, de Uruguaiana e outras plagas da campanha gaúcha. Vinham à toda por Cruz Alta, Passo Fundo e em Marcelino Ramos, em paradas, às vezes curtas, às vezes demoradas, tinham que baldear os passageiros para o então P-14 da Rede de Viação Paraná-Santa Catarina. Um dia, não faz muito tempo, um foguista de uma maria-fumaça da RVPSC me disse que trocavam de trem na ponte do Rio Uruguai porque os gaúchos não queriam lavar as botas quando iam entrar em Santa Catarina... quá-quá-quá!


   Três vezes por semana – nas terças, quintas e sábados – o Paulista partia de Marcelino Ramos, digamos, às 11h25min, para atravessar o chão que fora contestado e chegar na margem do Rio Iguaçu pontualmente (na verdade ele nunca chegava no horário!) aos quarenta minutos do dia seguinte, 13 horas depois e percorridos 368 quilômetros de trilhos. Na estação comum, conjugada e coberta, de Porto União (SC) e União da Vitória (PR), o Paulista parava cerca de uma hora, refazia-se de forças e logo tocava a viagem adiante, rumo a Ponta Grossa, depois a Itararé, onde, pasmem, nova baldeação, desta vez para uma composição da Sorocabana, para então ir à capital de São Paulo. Minha Nossa Senhora! que maratona!


   Ah! Ficou curioso, heim? Quer saber um pouco sobre a viagem do Paulista, de maria-fumaça pelo Paraná, até a divisa com São Paulo? Tá bão! Eu conto. Vamos deixar os trens mistos de lado e explicar a rota do Direto.


   A partida de União da Vitória era à 1h30min da madrugada. Percorreria 264 quilômetros em cerca de dez horas de viagem até Ponta Grossa, para chegar na pérola dos campos gerais às 11h35 (pouco antes do meio dia), passando por Paula Freitas, Paulo Frontin, Dorizon (águas termais), Malet, Rio Azul, Rebouças, Engº Gutierrez, Irati, Teixeira Soares, Rio Tibagi, entre outras estações. Uma hora depois, mais precisamente às 13h05min (se é que os atrasos constantes seriam precisões), o trem Paulista partia de Ponta Grossa para mais uma jornada rumo ao norte, ao chamado Paraná Velho. Seria um outro tanto: 252 quilômetros em quase mais nove horas de viagem, até Itararé, no entroncamento com a Estrada de Ferro Sorocabana, agora já em terras de São Paulo. O Direto passava por Castro, Piraí do Sul, Jardim Murtinho, Jaguariaíva, Fábio Rêgo, Tucunduva, e Sengés, entre as estações principais.


   Sem contar os percursos no Rio Grande Amado de Marcelino Ramos para baixo, e nos constitucionalistas paulistas de Itararé para cima, some aí: do Rio Uruguai ao Rio Iguaçu, em Santa Catarina, eram 368 km em 13 horas; do Iguaçu a Itararé, no Paraná, 516 km em 19 horas, o que dava 884 curvos quilômetros em 32 horas corridas, ou 34 horas de viagem, contando as paradas de União da Vitória e Ponta Grossa.


   Como de Santa Maria a Passo Fundo (via Júlio de Castilho, Cruz Alta e Carazinho) eram 336 km e de Passo Fundo a Marcelino Ramos (via Getúlio Vargas e Erechim) mais 179 km, o que resultava em 515 quilômetros, em cerca de 12 horas, com isso, de Santa Maria (RS) a Itararé (SP), tinha-se 1.399 km, mais quatro km de desvios, totalizando 1.403 km de ferrovia para 46 horas sentado, que era o traçado da antiga e famosíssima São Paulo-Rio Grande, a EFSPRG dos norte-americanos, a Ferrovia do Contestado para nós, que, um dia, ainda escreveríamos um livro sobre este trem de ferro.


   Quer mais? então vai: De Porto Alegre a Santa Maria eram 344 km, passando por Cachoeira do Sul, num percurso que levava mais ou menos 13 horas. Já a distância de São Paulo a Itararé, via Sorocaba, que demorava de 14 a 15 horas, era de 405 km. Para finalizar, a distância ferroviária entre as duas capitais, a rio-grandense amada e a paulista estimada, era de 2.152 quilômetros, levando-se de 72 a 74 horas, o que significava três dias e três noites inteirinhas. Rapidinho, até, se comparado com o tempo que por terra levavam os tropeiros, que cobriam esta distância de quatro a seis meses no lombo de mulas. É mole?




(continua)

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