09/05/2012 00h00
Pois é... e agora, o que eu iria fazer?
Caíra a noite em Marcelino Ramos e ali estava eu, só. Passei pelo balcão, dirigi-me ao refeitório do Grande Hotel, onde uma empregada de Dona Maria estava servindo uma sopinha de anholini (agnolini ou capeletti, não?) com batata, mandioquinha e cenoura picadas, muito cheirosa e bem saborosa, com pãozinho caseiro fresco e queijo parmezão ralado no complemento. Ai! ai! Assim você me mata! delícia! delícia! Para beber, ia pedir uma gazoza, mas optei por uma taça de vinho tinto de colônia, de uva Izabel, que era o que tinha, e só este havia.
Na sala do outro lado do corredor, alguns caixeiros-viajantes descansavam, estirados nos sofás de pano. Um lia o Correio do Povo do dia anterior (jornal que chegava diariamente com o trem um dia depois), outro folhava a revista O Cruzeiro (esta do mês). Nenhuma mulher ali. Nem casada e nem solteira. Só dava hôme. Dona Maria veio, sorridente, servir um cafezinho, na verdade, uma média sem leite mas com boa dose de açúcar mascavo que não esquecia o sabor do melaço. Pois é, sorridente ele me olhou olho dentro do olho e aí eu tive certeza: ela foi minha cúmplice antes à tarde. Me livrou do pior. Ser-lhe-ia grato o resto da vida.
Terminou a sopa, acabou a janta. Marcelino Ramos estava pegando no sono, como toda boa cidade do interior onde a vida noturna se resolve embaixo das cobertas. Todos apagavam todas as luzes, menos as dos postes, acesas para mostrar o caminho aos boêmios da rua até a entrada da madrugada da saída dos bares. Tinha quem bebia até demais a cachaça dos alambiques da beira do Rio Uruguai, sim senhor, uma caninha branquinha e purinha de primeira que merecia ser degustada a cada novo luar. Então, hora de dormir!
Não conseguia tirar aquela foi uma linda mulher pra mim da minha cabeça. Ela havia mexido comigo. Nossa relação, ainda que meio rápida, tinha sido muito boa, cheia de paixão, ainda que platônica demais para meu gosto (e dela também, imagino). Nas palmas das minhas mãos restou apenas a sensação da sua pele macia e na minha boca a maciez dos seus lábios molhados. Foi aí que caí em mim: quem era aquela que foi minha deusa na viagem? Que babaca eu fui: ainda no trem eu havia esquecido de pedir seu nome. Não sabia quem ela era, de onde vinha e, para onde iria mesmo? para Getúlio Vargas? Estação Getúlio? Floriano Peixoto? Pior: também não tinha dito a ela meu nome, nem dado meu endereço. Quase dei um soco no bidê do quarto, de brabo por ter sido tão burro!
Amanhã eu ia acordar cedo, tomar meu café e pegar o rumo do seminário, lá no alto, onde haviam colocado as estátuas de Nossa Senhora da Salete, a minha padroeira. Aquilo ali um dia viraria santuário, visitado por organizadas romarias em clima de festa. Eu ia pagar minha promessa pela graça alcançada lá no Caçador. Ia me ajoelhar ao lado das estátuas de cimento dos meninos Maximin e Melanie, em frente à imagem da santa e rezar baixinho. E depois? Será que deveria procurar um dos padres do seminário na capela pra me confessar? E pra ser absolvido por algo que não fiz com minha musa que não foi minha, pois nada houve? só pensar em fazer seria pecado? venial ou mortal? o que mesmo eu havia aprendido no catecismo?
No meio da madruga fui acordado com vários uíbus-uíbus e badalar de sinos das marias-fumaças da Rede Férrea do Rio Grande do Sul, que puxavam um trem que chegara à estação. Virei o travesseiro, virei de lado e quase dormi de novo, quase. Por volta das cinco horas, outro despertar: blim-blim, blim-blim, era o misto do norte que estava saindo da estação. O maquinista, sacana, não deu trégua: uíbu-uíbu também e lá se foi em direção à ponte e aos trilhos catarinenses no outro lado do Rio Uruguai, reacordando boa parte da população da dorminhoca Marcelino.
De manhã, fiz o que tinha que fazer. Fui bem cedo. O prefeito da cidade, Leônidas Coelho de Souza, que antes foi prefeito lá do Caçador também, havia alargado a rua que levava morro acima até o seminário. Logo ia ter calçamento nessa ruazinha íngreme, mas agora ainda não tinha. Rezei o suficiente à Nossa Senhora pra pagar a promessa e assim quitei a fatura. Olhei pros lados, não vi nenhum padre, com o que me auto dispensei do confessionário e me absolvi de qualquer pecadinho ou pecadão. Pronto! Meia hora depois eu estava purificado! Pronto pra outra, isso sim.
Comecei a descer a ladeira da Rua do Seminário até a pracinha Porto Alegre. Passava pela esquina da parada dos ônibus, que o pessoal chamava de “Rodoviária”, pois já tinha uma “jardineira” que levava gente até Viadutos e Gaurama. Dali iria à estação para ver os horários dos trens, para voltar ao meu longe Caçador. Antes, claro, daria uma passada no hotel, pagaria a conta e abraçaria a Dona Maria e o seu Dobrowolski – meus cúmplices - para agradecer-lhes por me tirarem da quase enrascada na tarde anterior.
(continua)